terça-feira, 7 de agosto de 2012

Relembre a História do Fenemê, o Caminhão Mais Brasileiro de Todos

Produzidos na Fábrica Nacional de Motores, no Rio de Janeiro, os veículos marcaram época



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Parte da coleção pessoal de Osvaldo Strada fica no interior de São Paulo

 
Um ronco grave e sincopado habita a memória dos apaixonados por caminhões pesados. O som, orquestrado pelos pistões que tinham uma câmara de explosão em formato diferente, marcou o motor seis cilindros dos caminhões FNM. A robustez do motor e o ruído estralado, vindo de trás de uma lataria de visual sisudo, fez do Fenemê um clássico absoluto das estradas brasileiras. Lembrados como possantes, fortes e estradeiros, os veículos produzidos na fábrica de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, ainda despertam curiosidade e paixão por onde passam.

Eles tinham cara de mau e de fato eram. A força sempre foi a marca registrada dos Fenemê. Criada por Getúlio Vargas, a Fábrica Nacional de Motores (FNM) começou a ser construída em 1940, destinada a produzir motores aeronáuticos para uso militar. O fim da Segunda Guerra Mundial tornou os motores obsoletos quando a fábrica finalmente iniciou a produção, em 1946. Após fabricar geladeiras, compressores, bicicletas, entre outras coisas, a FNM apostou nos caminhões em 1949. O primeiro flerte com os pesados foram as 200 unidades de um modelo diesel de 7,5 litros, fruto da parceria com a italiana Isotta Fraschinni.

Após dificuldades financeiras na parceira, novo acordo foi firmado com outra italiana, a Alfa Romeo. Começa aí a trajetória de sucesso dos caminhões da marca. Os primeiros modelos, produzidos em 1951 e vendidos a partir de 1952, foram denominados D-9.500, equipados com motores de 130cv e com uma capacidade de carga de 8.100 kg (aumentada para 22.000 kg se acoplado a uma carreta de dois eixos) - números normalmente extrapolados na época. Além de ser capaz de puxar muita carga, era o único caminhão a possuir cabine leito com duas camas, ideal para enfrentar longas viagens nas torturantes estradas brasileiras de então.

Vieram os modelos D-11.000 em 1958, com potência de 150 cavalos, que ao lado do D-9.500 atingiu sucesso absoluto de público. Em 1968, a fábrica foi definitivamente vendida à Alfa Romeo - numa das primeiras privatizações do País -, que seguiu produzindo os modelos 180 e 210. No ano de 1976, a Fiat comprou a maior parte das ações assumindo o controle da fábrica e passando a produzir os modelos Fiat 190. Em 1985, já administrada pela Iveco, com o declínio nas vendas, a fábrica encerra suas atividades no Brasil, declarando o fim da fabricação dos Fenemê. Ao longo de todas as fases, a empresa produziu aproximadamente 15 mil veículos.

Os sobreviventes

Embora com mais de meio século nas costas, não é impossível ver um destes caminhões rodando pelas estradas brasileiras. E, por onde passa, a comoção é grande. É o que garante um grupo apaixonado pelos FNM, que realizou no ano passado uma viagem do interior de São Paulo a Salvador, na Bahia. - “As pessoas batiam palmas nas cidadezinhas que passávamos. Em Salvador, um cara parou o carro no meio do trânsito, subiu no estribo da carroceria e mandou acelerar para ouvir o ruído”, conta Ito Buhrer, funcionário público e ex-motorista nos anos dourados de FNM.


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O trio de caminhões Fenemê que realizou a viagem de São Paulo a Bahia

A história da viagem começou com Osvaldo Strada, um empresário conhecido por ter uma das maiores coleções de Fenemês do Brasil. Ao todo, são 20 unidades, que contam a trajetória da marca, com modelos de diversos anos, tipos de cabine e caçamba. Em uma chácara no interior de São Paulo, Strada criou um espaço para guardar e restaurar as relíquias. Filho de alfeiro - como chamam os motoristas destes possantes - ele não consegue explicar a paixão que os FNM despertam. - “É uma coisa meio para doido, também tento entender esse amor e não consigo”, revela.

O mesmo acontece com outro filho de alfeiro, José Reinert. - “A diferença dos Fenemê para os outros caminhões é a potência e a robustez, na época era bem gritante a diferença, ele tinha muita capacidade de carga, chassi forte, motor lento e muito reduzido, então puxava bastante peso”, destaca Reinert. - “Por ele ser reduzido, dificilmente atolava. Quando algum outro caminhão encalhava ele era usado para puxar, como se fosse um trator”, diz.


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Ito Buhrer, José Reinert, Osvaldo Strada e amigos com os FNM

Outro que enfrentou a tradicional rota pela BR-116 até Salvador foi Ito Buhrer. Aos 18 anos, seu Ito comprou o primeiro Fenemê. Ele conta que a velocidade máxima de 38km/h não fazia diferença, pois nas estradas brasileiras da época era difícil chegar a isso. - “De São José dos Pinhais, no Paraná onde eu morava, até Joinville, em Santa Catarina, a distância era de 120km. Os caminhões saíam de manhã cedo e chegavam lá à noite, isso quando a estrada estava boa”, relata Buhrer.

A viagem histórica de janeiro de 2011, entre São Paulo e Bahia, envolveu três modelos: um FNM Brasinca 1961 trucado, um FNM Standard 1964 cavalo mecânico na tradicional cor verde seda e um FNM Standard 1965 trucado. Embora sem conseguir explicar sua paixão, Osvaldo Strada destaca uma das qualidades dos FNM:
- “Os Ford eram a gasolina e os Fenemê a diesel, então o caminhão tecnologicamente tinha tecnologia de ponta, com muita capacidade de carga. Você acha FNM de 1955 rodando, mas não acha Ford deste ano”, conta. “Não sei se é hobby ou loucura, pois a linha que divide um lado e o outro é muito tênue, mas, para nós, caminhão existe antes e depois dos Fenemê”, conclui.
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Outros caminhões FNM de Osvaldo Strada, aficionado pelos veículos
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Ito Buhrer ao lado do FNM Standard 1965 trucado

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Ito Buhrer em Aparecida do Norte, em 1975, ao lado de um FNM 62 Bonanza


Fonte: (do Terra - Transporte & Logística, em 03/ago/2012)

domingo, 29 de julho de 2012

Senhor do Mundo - Capítulo 3 do Livro 2

Depois de um longo atraso, devido a compromissos, publico mais um capítulo do Livro 2 do Senhor do Mundo de Robert Benson.


Capítulo 3, Livro 2

Parte 1

O Cardeal falou muito pouco com Percy, depois que eles se encontraram novamente naquela noite, além do fato de parabenizá-lo pela maneira como se comportou com o Papa. Pareceu que o padre havia sido correto em sua extrema franqueza. Depois, disse a ele quais seriam seus deveres.

Percy iria ficar com algumas salas que foram postas à sua disposição; ele deveria fazer a missa, como de praxe, no oratório do Cardeal; e depois disso, às nove, ele deveria se apresentar para instruções: ele iria comer ao meio dia com o Cardeal, depois do qual ele poderia se considerar liberado até a Ave Maria: a seguir, novamente ele deveria ficar à disposição do seu chefe até a ceia. O trabalho, que ele teria que fazer principalmente, era a leitura de todas as correspondências em inglês e fazer um relatório sobre isso.

Percy achou essa vida muito agradável e tranquila, e o sentimento de estar em casa se aprofundava a cada dia. Ele tinha muito tempo para si, que ocupava resolutamente com relaxamentos. Das oito às nove, ele geralmente passeava, indo pelas ruas relaxadamente, olhando igrejas, vendo pessoas, e gradualmente absorvendo a estranha natureza da vida sob aquelas condições de antigamente. Às vezes, parecia para ele como estivesse em um sonho histórico; às vezes, parecia que não havia nenhuma outra realidade; que a silenciosa e tensa civilização era em si um fantasma e ali onde estava, podia sentir a ingenuidade da infância novamente. Até mesmo a leitura das correspondências não mexera muito com ele, pois sua mente agora estava mais envolvida com aquele doce e antigo momento; e ele lia, analisava e diagnosticava com profunda tranquilidade.

Não havia, na verdade, muitas notícias. Estava uma espécie de calmaria após uma tempestade. Felsenburgh ainda estava retirado; ele havia recusado as ofertas feitas a ele pela França e Itália, assim como da Inglaterra; e embora nada em definitivo havia sido anunciado, parecia que ele estava decidido a não tomar nenhuma atitude oficial. Enquanto isso, os Parlamentos da Europa estava ocupados com os estágios preliminares da revisão dos códigos. Nada seria feito, segundo se entendia, até as sessões do outono.

A vida em Roma era bastante estranha. A cidade tinha agora se transformada não apenas no centro da fé, mas, de certa maneira, em um microcosmo dela. Estava dividida em quatro grandes áreas—Anglo-saxônica, latina, teutônica e oriental-- além de Trastevere, que era ocupada quase que inteiramente pelos escritórios papais, seminários e escolas. A área anglo-saxônica ocupava a parte sudoeste, agora inteiramente coberta por casas, incluindo as colinas do Aventino, Celiano e Testaccio. Os latinos habitavam a velha Roma, entre o Rio Tibre, os teutônios a parte nordeste, limitada ao sul pela Rua de São Lourenço; e a parte oriental, cujo centro era o Palácio de Latrão. Desta maneira, os verdadeiros romanos quase não percebiam intrusões; eles possuíam uma grande quantidade de suas próprias igrejas, que eram permitidas abrir em ruas estreitas e escuras e manter seus mercados; e era aqui onde Percy andava, apaixonado pelo retrospecto histórico. Mas as outras áreas também eram estranhas também. Era curioso ver como uma progênie de igrejas góticas, servidas por padres do norte, tinha crescido naturalmente nos distritos anglo-saxônicos e teutônicos, e como as largas ruas acinzentadas, com seus pisos regulares, as residências sisudas, indicavam como os que viviam no norte, não haviam ainda percebido as necessidades da vida do sul. Os Orientais, por outro lado, relembravam os latinos; as suas ruas eram ao mesmo tempo sujas e caseiras, e suas cores ainda mais brilhantes.

Fora dos muros, a confusão era indescritível. Se a cidade representava a miniatura esculpida do mundo, os subúrbios representavam o mesmo modelo quebrado em milhares de pedaços, mexidos em um saco e depois jogados fora ao léu. Até onde os olhos podiam ver, em todos os lados vistos do alto do Vaticano, uma grande quantidade de residências, interrompida aqui e ali por pináculos, torres, domos e chaminés, onde viviam seres humanos de todas as raças. Ali estavam as grandes manufaturas, as grandes construções do novo mundo, as estações, as escolas, os escritórios, todos sob domínio secular, contudo cercados por seis milhões de almas que viviam ali por amor à religião. Eram esses que se desesperavam frente a vida moderna, cansados de mudanças e esforço, que haviam fugido do novo sistema para o refúgio na Igreja, mas que não podiam obter permissão para viver na própria cidade. Novas casas continuavam a se espalhar em todas as direções. Um gigantesco compasso, com uma parte fixa em Roma, e com um alcance de mais de seis quilômetros, iria, se girado, passar por ruas lotadas dentro desse círculo. E mais além, casas se acumulavam a distâncias indefinidas.

Contudo, Percy não percebeu a importância de tudo que ele via, até a chegada do dia do santo do Papa no final de agosto.

Ainda estava fresco e cedo, quando ele seguiu seu patrono, a quem ele deveria servir como capelão, pelas largas passagens do Vaticano em direção à sala onde o Papa e os Cardeais deveriam se reunir. Por uma janela, ele via a praça com a multidão ainda mais densa, se isso fosse possível, que tinha estado uma hora antes. A grande praça oval estava coberta de pessoas, através da qual seguia uma larga avenida, guardada por tropas papais para a passagem de carruagens; e chegavam grandes veículos, com os brilhos intensos de dourado, alguns aplausos começaram e pararam, e logo veio o ruído de rodas sobre as pedras, como o som de ondas do mar movendo-se sobre a areia da praia coberta de pedregulhos.

Enquanto esperava na antecâmara, preso pela pressão na frente e atrás-um grupo de escarlate, branco e púrpura- ele olhou para fora novamente e percebeu o que ele já sabia  que ali ante seus olhos, estava a realeza do velho mundo reunida—e  começou a perceber sua importância.

Ao redor dos degraus da basílica, havia várias carruagens, cada uma com oito cavalos—o branco da França e Espanha, o preto da Alemanha, Itália e Rússia e a cor de creme da Inglaterra. Elas ficavam perto do semicírculo e além delas, estavam as menores potências: Grécia, Noruega, Suécia, Romênia e os Países dos Bálcãs. Os emblemas de alguns eram visíveis—águias, leões, leopardos—guardando a coroa real acima do teto de cada carruagem. Dos pés dos degraus até na parte de cima, havia um grande tapete vermelho, ladeado por soldados.

Percy se inclinou contra a veneziana, e começou a meditar. Aqui estava tudo que restava da Realeza. Ele tinha visto seus palácios antes, aqui e ali nas várias áreas, com estandartes tremulando, e homens fardados de vermelho descansando nos degraus. Ele tinha levantado seu chapéu uma dezena de vezes ao ver passar o landô por ele; havia visto os lírios da França e os leopardos da Inglaterra passarem juntos na parada solene do Monte Pisciano. Ele tinha lido os jornais algumas vezes durante os últimos cinco anos que família após família tinha caminhado à Roma, depois do reconhecimento papal ter sido dado; o Cardeal tinha dito a ele na noite anterior, que William da Inglaterra, com sua Consorte, havia chegado a Ostia pela manhã e que a reunião das Potências estava completa. Mas ele não havia percebido o importante fato da reunião da realeza do mundo sob a sombra do Trono de Pedro, nem o grande perigo que sua presença constituía no meio de um mundo democrático. Aquele mundo, ele sabia, afetado por rir da alegria e da infantilidade de tudo isso- no desesperado modo de agir do Direito Divino na parte dos derrotados e das famílias desprezadas; mas o mesmo mundo, ele sabia muito bem, não tinha ainda perdido todo aquele sentimento; e se aquele sentimento devesse acabar se tornando ressentido--

A pressão se relaxava; Percy saiu do recesso e seguiu ao séquito lento.

Meia hora depois, ele estava em seu lugar entre os eclesiásticos, quando a procissão papal saiu pela escura capela do Santo Sacramento para a nave da enorme igreja; mas antes mesmo dele ter entrado na capela, ele ouviu o som dos trompetes que saudavam o Supremo Pontífice ao sair, vários metros à frente. Quando Percy saiu, cinco minutos depois, caminhando, ele viu o que estava esperando por ele. Ele se lembrou com um aperto no coração o que havia visto em Londres na madrugada de verão há três meses...

Bem à distância, parecendo romper o caminho, como a proa de um navio antigo, se projetava um altar debaixo do qual sentava o Senhor do Mundo, e entre ele e o padre, como se fosse na esteira do mesmo barco, se movimentava a linda procissão—Protonotários Apostólicos, Superiores de Ordens Religiosas e o restante percorrendo pelo caminho branco, dourado, vermelho e prata entre as fileiras de cada lado. Sobre eles, estava o esplêndido teto da abóbada, e distante, à frente, o refúgio do altar de Deus com seus enormes pilares, onde brilhavam as sete estrelas amarelas, que eram as luzes de guarda da santidade.

Era um vista estonteante, mas muito grande e espantosa que pudesse qualquer coisa a não ser oprimir os observadores com a consciência de sua própria futilidade.
O ar fechado, as enormes estátuas, os tetos turvos e altos, o concerto indescritível do som—do movimento dos pés, o murmúrio de centenas de vozes, o som de órgãos imitando o som de mosquitos, a música celestial—o leve cheiro sugestivo de incenso, louro e  murta---- e , suprema acima de tudo, a vibrante atmosfera da emoção humana, em aspiração sobrenatural, quando a Esperança do Mundo, o portador da Divina Vice Realeza, passava pelo seu caminho para estar entre Deus e o homem—isto afetava o padre como uma ação de uma droga que embala e estimula, que cega ao dar uma nova visão, que ensurdece ao abrir ouvidos tapados, que exalta ao mergulhar nos meandros da consciência. Aqui, então, estava a outra resposta formulada para o problema da vida. As duas cidades de Augustino ali estavam para ele escolher. Uma era aquela de um mundo criado por si, organizado e auto-suficiente, interpretado por homens como Marx e Hervé, socialistas, materialistas, e, no fim, os hedonistas, resumindo tudo finalmente em Felsenburgh. Na outra, estava a visão que estava diante dele, falando sobre um Criador e sobre uma criação, de um propósito Divino, uma redenção, e um mundo transcendente e eterno do qual tudo se originava e para o qual tudo se movia em sua direção. Um dos dois, João e Julian, era o Vigário e o outro o Símio, de Deus... e o coração de Percy mais uma vez apertava com sua escolha feita...

Mas o clímax ainda não havia chegado.

Quando Percy finalmente saiu da nave debaixo do domo, em seu caminho para a tribuna, além do trono do papa, ele percebeu um novo elemento.

Um grande espaço foi arrumado ao redor do altar e do confessionário, estendendo-se, até onde ele podia ver da sua posição, para o ponto que marcava a entrada para os transeptos; neste ponto havia barras de lado a lado, continuando as linhas da nave. Além desta barreira havia um declive gradual de rostos, brancos e imóveis e acima, a um terço da distância abaixo do transepto, se elevava, em solene faixa apertada, uma linha de altares.

Seu coração acelerava ao contemplar, enquanto ele passava seus olhos ao redor e pela direita, vendo como em um espelho a réplica da esquerda no transepto direito.
Foi lá então onde eles se sentaram—aqueles solitários sobreviventes da estranha companhia de pessoas que, até meio século atrás, tinha reinado como vice-reis temporais de Deus, com o consentimento de seus súditos.

Eram irreconhecíveis agora, salvo por Ele de quem eles obtinham a soberania—pináculos pendurados de um domo, do qual as paredes havia sido retiradas. Estes eram homens e mulheres que tinha aprendido finalmente que o poder vem de cima, e os seus poderes para governar não vinham dos súditos, mas do Supremo Comandante de todos—pastores sem ovelhas, capitães sem soldados para comandar. Era comovente---horrivelmente comovente, contudo inspirador. O ato de fé era tão sublime; e o coração de Percy acelerou ao entender isso. Esses então, homens e mulheres, assim como ele, não estavam envergonhados em apelar de homem para Deus, em assumir a insígnia que o mundo considerava um brinquedo, mas que para eles eram emblemas do comissionamento sobrenatural. Não estava espelhado ali, ele se perguntava, alguma sombra distante do Supremo que cavalgava em cima de um asno em meio a escárnios dos doutores da lei e ao entusiasmo das crianças?...


* * * * *

Ficou ainda mais entusiasmante quando a missa começou, e ele  viu os soberanos virem para seus serviços no altar, e irem e voltarem dele e ao trono. Lá iam eles sem chapéus, as figuras solenes e silenciosas. O rei inglês, uma vez mais _Fidei Defensor_  sustentava a procissão no lugar do velho rei da Espanha,que, com o Imperador Austríaco, exceção a todos os soberanos europeus, tinha preservado a continuidade inquebrável da fé. O velho senhor se inclinava em seu banquinho, murmurando e choramingando, às vezes chorando alto devido ao amor e a devoção, como, igual a Simeão, ele via a sua Salvação. O Imperador Austríaco por duas vezes administrou o lava-pés; o soberano alemão, que havia perdido seu trono e tudo menos a sua vida ante a sua conversão quatro anos antes, por um novo privilégio colocou e retirou a almofada, ao seu Senhor se ajoelhar ante o Senhor de ambos. Assim, movimento por movimento, o maravilhoso drama era executado; o murmúrio da multidão descia ao nível da quietude, que não era mais que uma oração silenciosa ao pequeno Disco Branco entre as mãos brancas, e a leve música angelical soava no domo. Pois ali estava a única esperança desses milhares, tão poderosa e tão pequena quando dentro da Manjedoura. Não havia outro que lutava por elas a não ser Deus. Certamente então, se o sangue dos homens e as lágrimas das mulheres não pudessem ajudar a tirar o Juiz e Observador de todos de Seu silêncio, certamente pelo menos aqui a incruenta Morte de Seu único Filho, que uma vez no Calvário tinha escurecido os céus e dominado a terra, pleiteava agora com tal esplendor penoso por esta ilha de fé, que estava em meio a um mar de risos e ódio- isto pelo menos deveria conceder! Como não poderia?



* * * * *

Percy havia se sentado, cansado das longas cerimônias, quando a porta se abriu abruptamente, e o Cardeal, ainda em seu manto, entrou rapidamente, fechando a porta atrás dele.

“Padre Franklin,” disse ele, com uma voz ofegante, “há péssimas notícias. Felsenburgh foi apontado Presidente da Europa.”



II

Foi tarde da noite quando Percy retornou, completamente cansado de seu trabalho. Por várias horas, ele havia conversado com o Cardeal, abrindo despachos que chegavam dos receptores elétricos de toda a Europa, e eram trazidos um a um para a quieta sala de estar. Por três vezes naquela tarde, o Cardeal tinha sido chamado, uma vez pelo Papa e duas pelo Quirinal.
Não havia dúvidas que as notícias eram verdadeiras; e parecia que Felsenburgh estava deliberadamente aguardando a oferta. Ele havia recusado todas as outras. Havia acontecido um Congresso das Potências, e cada uma delas estava ansiosa em poder convencê-lo, e cada uma delas havia falhado; estes pedidos foram retirados e uma nova solicitação única fora enviada. A nova proposta era de que Felsenburgh assumiria uma posição jamais sonhada na democracia; a de que ele teria uma Câmara de Governo em todas as capitais da Europa; que seu veto a qualquer medida seria final por três anos; que qualquer medida que ele escolhesse introduzir três vezes em três anos consecutivos deveria se tornar lei; que seu título deveria ser o de Presidente da Europa. De parte dele, praticamente nada foi pedido, exceto que ele deveria recusar qualquer outra posição oficial oferecida a ele que não recebesse a sanção de todas as Potências. E tudo isso, Percy percebeu muito bem, fazia com que o perigo de uma Europa unida aumentasse dez vezes mais. Envolvia toda a força estupenda do Socialismo dirigido por um brilhante indivíduo. Era a combinação das características mais fortes dos dois sistemas de governo. A oferta tinha sido aceita por Felsenburgh após um silêncio de oito horas.

Era notável, também, observar como as notícias tinham sido aceitas pelas outras duas divisões do mundo. O Oriente estava entusiasmado; a América estava dividida. Mas em qualquer caso, a América estava impotente: o equilíbrio do mundo estava  completamente contra ela.

Percy se jogou, como estava, sobre sua cama, e ficou lá com pulsos ainda batendo forte, fechando os olhos e tendo uma grande angústia no coração. O mundo tinha mesmo despertado como um gigante por sobre os horizontes de Roma, e a cidade sagrada não era mais do que uma castelo de areia ante uma onda do mar. Tentava compreender o quanto podia. Como a ruína viria, de que forma e de qual direção, ele não sabia ou se importava. Apenas sabia agora que viria.

Acabara de aprender algo de seu próprio temperamento; e se dirigia a si próprio para se observar amargamente, como um médico em doença mortal iria com uma terrível complacência diagnosticar seus próprios sintomas. Ele não temia mais pela sua própria religião; ele sabia, tão absolutamente como um homem pode saber a cor de seus olhos, que estava seguro agora e longe de se estremecer. Durante estas semanas em Roma, a nebulosidade tinha se acabado e o canal estava mais uma vez visível. Ou, melhor ainda, a vasta estrutura do dogma, das cerimônias, costumes e morais nas quais ele havia se educado, e sobre as quais ele tinha seguido sua vida, vendo agora uma faísca de luz, depois outra, acender e apagar na escuridão, tinha pouco a pouco acendida e se revelada em uma estupenda chama de calor divino que se auto explica. Grandes princípios, uma vez desconcertantes e até mesmo repelentes, eram agora luminosamente auto-evidentes; ele via, por exemplo, que enquanto a Religião Humanista se esforçava para abolir o sofrimento, a Divina Religião o abraçava, tal que as dores até mesmo de animais ferozes estavam dentro da Vontade e Esquema do Pai; ou que enquanto de um ângulo, uma cor apenas da trama da vida era visível—material, ou intelectual ou artística—de outro ângulo, o Sobrenatural era eminentemente óbvio. A Religião Humanista não poderia ser verdadeira se pelo menos metade da natureza do homem, suas aspirações e tristezas fossem ignoradas. O Cristianismo, por outro lado, pelo menos as incluía e as reconhecia, mesmo se não as explicava. Isto...e isto...e isto... tudo fazia o único e perfeito todo. Havia a fé católica, mais certa para ela do que sua própria existência: era verdadeira e viva. Ele poderia estar condenado, mas Deus reinava. Ele poderia ficar louco, mas Jesus Cristo era a Deidade Encarnada, provando a Si próprio pela morte e Ressurreição, e João seu Vigário. Estas coisas eram como os ossos do Universo—fatos além da dúvida—se não fossem verdadeiras, tudo em qualquer lugar era apenas um sonho.

Dificuldades?—Ora, havia milhares. Ele não entendeu por que Deus tinha feito o mundo como era, nem como o Inferno podia ser a criação do Amor, nem como o pão era transubstanciado no Corpo de Deus, mas—bem, estas coisas eram assim. Ele tinha viajado muito longe, ele começara a ver, do seu velho status de fé, quando ele tinha acreditado que a verdade divina poderia ser demonstrada em bases intelectuais. Ele tinha aprendido agora (ele não sabia como) que o sobrenatural clamava para o sobrenatural; o Cristo de fora para o Cristo de dentro; aquela pura razão humana não poderia se contradizer, contudo não poderia  adequadamente provar os mistérios da fé, exceto em premissas visíveis apenas para aquele que recebe a Revelação como um fato; que é o estado moral, em vez do intelectual, para o qual o Espírito de Deus fala com grande certeza. Isto que ele havia aprendido nessa Fé, tendo, como o próprio homem, um corpo e um espírito—uma expressão histórica e uma verdade interior—fala agora por um, agora pelo outro. Este homem acredita porque ele vê—aceita a Encarnação ou a Igreja pelas suas credenciais; esse homem, percebendo que estas coisas são fatos espirituais, se rende inteiramente para a mensagem e a autoridade dela que sozinha as professa, assim como para a manifestação dela sob o plano histórico; e na escuridão ela inclina seu braço. Ou, melhor ainda, porque ele acreditou, agora ele vê.

Assim, ele olhou com uma espécie indolência para os outros tratos de sua natureza.

Primeiro, havia seu intelecto, perguntando, Por quê, por quê, por quê? Por que foi permitido? Como foi concebível que Deus não interviesse, e que o Pai dos homens pudesse permitir Seu querido mundo estar tão enraivado Dele? O que Ele tencionava? Este eterno silêncio nunca seria quebrado?  Estava muito bem para aqueles que tinham a Fé, mas e quanto aos milhares que estavam vivendo em blasfêmia? Não estavam estes, também, Suas crianças e as ovelhas do Seu Pasto? Para que era feita a Igreja Católica senão para converter o mundo, por que então tinha o Deus Todo Poderoso permitido isso, de um lado, uns poucos e de outro, o mundo para encontrar sua paz longe dele?

Ele considerava suas emoções, mas não havia nenhum conforto aí, nenhum estímulo. Oh! Sim; ele ainda podia orar, por meros atos frios da vontade, e sua teologia dizia a ele que Deus aceitava desta forma. Ele poderia dizer “_Adveniat regnum
tuum. ... Fiat voluntas tua_,” cinco mil vezes por dia, se Deus quisesse; mas não havia vibração. O que no mundo então Deus queria que ele fizesse? Era apenas repetir fórmulas, ficar quieto, abrir despachos, ouvir ao telefone e sofrer?

E quanto ao resto do mundo—a loucura que tinha se apossado das nações; as fantásticas estórias que chegavam sobre os homens em Paris, que delirantes como as Bacantes, se despiram na Praça da Concórdia e se apunhalaram no coração, gritando que a vida era muito escravizante para ser vivida, da mulher que enlouqueceu na noite passada na Espanha, cantando e rindo até espumar pela boca no concerto em Sevilha; da crucificação de católicos naquela manhã nos Pirineus, e a apostasia de três bispos na Alemanha... E isto... e aquilo... e milhares de outros horrores eram permitidos, e Deus não dava nenhum sinal ou se pronunciava de alguma forma.

Uma batida na porta e Percy se levantou ao ver o Cardeal entrar.

Ele parecia bastante debilitado; e seus olhos estavam fundos que revelavam febre. Ele fez um pequeno movimento para Percy se sentar, e ele próprio se sentou na poltrona funda, tremendo um pouco, e colocando seus pés sob cobertura de seu casaco.

“Deve me perdoar, padre,” disse ele. “Estou preocupado com a segurança do Bispo. Ele devia já estar aqui.”

Era o Bispo de Southwark, lembrou Percy, que tinha deixado a Inglaterra cedo naquela manhã.

“Ele está vindo direto, Eminência?”

“Sim; ele deveria ter chegado aqui pelas onze horas. Já é meia-noite, não é?”

Enquanto falava, os sinos tocavam a hora.

Estava quase um silêncio agora. O dia inteiro o ar tinha estado em volto a barulhos; população havia feito assembleias em subúrbios; os portões da Cidade tinha sido lacrados, contudo isso era apenas um começo do que era esperado quando o mundo se compreendesse.

O Cardeal pareceu se recuperar após alguns minutos de silêncio.

“Parece muito cansado, padre,” disse ele amavelmente.

Percy sorriu.

"E o senhor, Eminência?" disse ele.

O velho senhor sorriu também.

"Ah, sim," disse ele. "Não vou durar muito mais, padre. E assim, você é que terá que sofrer."

Percy se endireitou, alarmado.

"Ora, sim," disse o Cardeal. "O Santo Padre já fez os arranjos. Saiba que você irá me suceder. Não precisa ser um segredo."

Percy, trêmulo, inspirou longamente.

"Eminência," iniciou ele com respeito.

O outro levantou a mão velha e delgada.

"Eu entendo tudo isso," disse calmamente. "Você deseja morrer, não é assim? – e ficar em paz. Há muitos que desejam isso. Mas devemos sofrer primeiro_Et pati et mori_. Padre Franklin, não pode haver hesitação."

Houve um longo silêncio.

A notícia fora forte o bastante para deixar o padre chocado.
Esse pensamento nunca tinha passado pela sua cabeça; que ele, um homem com menos de quarenta, pudesse ser considerado elegível para suceder aquele sábio e paciente prelado. Havia apenas uma visão diante dele—de uma longa e intolerável jornada, de um caminho a ser atravessado com um peso sob seus ombros, que ele não poderia suportar.

Contudo, ele já considerava sua inevitabilidade. O fato era anunciado para ele como indisputável; era para ser; não havia nada a ser dito. Mas era como se um golfo tinha sido aberto, e ele o contemplava com uma expressão de horror e incapacidade.

O Cardeal interrompeu o silêncio.

“Padre Franklin, “ disse ele, “ Hoje eu vi uma foto do Felsenburgh. Sabe quem que ele me fez lembrar?"

Percy sorriu com letargia.

"Sim, padre, me fez lembrar você. E agora, o que você entendeu disso?"

"Não entendi, Eminência."

"Ora---" ele interrompeu, repentinamente mudando de assunto.

"Houve um assassinato na Cidade hoje," ele disse. "Um católico esfaqueou um blasfemador."

Percy olhou para ele de novo.

"Oh! sim; ele não tentou escapar," continuou o velho senhor. "Ele está preso."

"E---"

"Ele será executado. O julgamento começará amanhã.... é muito triste. É o primeiro assassinato em oito meses."

A ironia da posição era evidente suficiente para Percy ao sentar ouvindo o silêncio ensurdecedor na noite estrelada. Aqui estava aquela cidade fingindo que nada importava, calmamente administrando sua justiça ridicularizada; e lá fora, estavam as forças se reunindo que iriam colocar um fim em tudo. Seu entusiasmo parecia acabado. Não havia vibração no pensamento sobre a grande desconsideração dos fatos dos quais este era apenas um pequeno exemplo, nada de coragem desesperada ou  negligência. Ele se sentia como aquele que vê uma mosca molhar sua face no cilindro de um motor—o enorme aço desliza levando a vida minúscula em direção à uma morte colossal—um outro momento e estará acabado, e contudo o espectador não consegue interferir. O sobrenatural assim permanece, perfeito e vivo, mas imensuravelmente minúsculo; as forças enormes estavam em movimento, o mundo estava se levantando, e Percy não podia fazer nada a não ser contemplar e franzir o rosto. Contudo, como tinha sido dito, não havia sombra nenhuma em sua fé; a mosca ele sabia que era maior que o motor pela superioridade da sua ordem da vida; se ela fosse esmagada, a vida não seria o sofredor final; até quanto ele não sabia.

Enquanto os dois estavam ali sentados, ouviram um passo e uma batida na porta; e o rosto de um servo apareceu.

"O Senhor chegou, Eminência," disse esse.

O Cardeal levantou com sofrimento, apoiando-se na mesa. Então, parou e parecendo lembrar-se de algo, tateou dentro do seu bolso.

"Veja isso, padre," disse ele, oferecendo um disco de prata ao padre. Não; quando eu partir."

Percy fechou a porta e voltou, pegando o pequeno objeto arredondado.

Era uma moeda, novinha em folha. Em um lado estava a coroa familiar com a inscrição “cinco pennies” no meio, com a equivalência em Esperanto embaixo, e no outro lado da moeda tinha o perfil de um homem, com a inscrição:

"JULIAN FELSENBURGH, LA PREZIDANTE DE UROPO."


III

Às dez horas da manhã seguinte, os cardeais foram convocados à presença do Papa para ouvir a alocução.

Percy, de seu assento entre os Consultores, via entrarem homens de todas as nações, temperamentos e idades—os Italianos todos juntos, gesticulando, e com os dentes brilhantes; os Anglo-Saxões de rostos firmes e sérios; um velho cardeal francês se apoiando em sua bengala, caminhando com o Beneditino Inglês. Era uma das grandes salas imponentes das quais o Vaticano consistia principalmente agora, com os bancos de comprido como em uma capela. Na parte mais inferior, atravessada pelo corredor, estavam os bancos dos Consultores; na parte superior, a plataforma com o trono papal.

Três ou quarto bancos com mesas, que ficavam além dos assentos dos Consultores, estavam reservados para o que haviam chegado no dia anterior—prelados e padres que chegaram à Roma de todos os países europeus , devido ao anúncio da surpreendente notícia.
Percy não tinha ideia do que seria dito. Era possível que nada a não ser coisas triviais seriam ditas, contudo o que mais poderia ser dito em vista da completa incerteza da situação? Tudo que se sabia naquela manhã, era que o Presidente da Europa era um fato; a pequena moeda de prata que ele tinha visto, corroborava isso; que tinham acontecido perseguições, reprimidas com rigor pelas autoridades locais;  e que Felsenburgh deveria começar hoje seu ciclo de viagens de capital a capital. Ele era esperado em Turim no fim de semana. De cada centro católico pelo mundo, vinham mensagens implorando para serem orientados; era dito que a apostasia estava aumentando em em grande quantidade, com ameaças de perseguições em todos os lugares, e que até os bispos começavam a hesitar.

Quanto ao Santo Padre, todos estavam com dúvidas. Aqueles que sabiam, não diziam nada; e o único rumor que escapou, era de que ele tinha passado a noite toda orando na tumba do Apóstolo...

O murmúrio se aquietou repentinamente para sussurro e depois para um silêncio; uma série de cabeças se abaixou ao longo dos assentos quando a porta ao lado do pálio se abriu e, em alguns momentos,  João, _Pater Patrum_, estava em seu trono.
.

* * * * *

A princípio, Percy não entendeu nada. Ele apenas contemplava, como  um quadro, através da empoeirada luz do sol que passava pelas janelas, com as linhas escarlates da direita e esquerda, para o enorme pálio vermelho, e para a figura de branco que lá sentava. Certamente, estes europeus do sul compreendiam o poder do efeito. Era tão viva e impressionante como uma visão da Hóstia em um recipiente adornado de joias. Todo acessório era lindo, a grande sala, a cor dos mantos, as correntes e cruzes, e os olhos se moviam para o clímax da peça de branco inerte—como se a glória estivesse exaurida e se declarada impotente para dizer o supremo segredo. Escarlate, púrpura e dourado eram bastante o suficiente para aqueles que estavam nos degraus do trono—eles precisavam disso, mas para Aquele que sentava ali nada era preciso. Deixem as cores se apagarem e os sons se abafarem na presença do Vice-Rei de Deus. Contudo, a expressão que era requerida, se encontrava naquele bonito rosto oval, a cabeça imperialmente equilibrada, os olhos doces e brilhantes, os lábios curvos que falavam tão decididamente. Não havia um som na sala, nem um sussurro, nem uma respiração—como se o mundo estivesse permitindo o sobrenatural pronunciar sua defesa sem interrupções.

* * * * *

Percy fez um esforço violento para se conter, cerrando os punhos e ouvindo.

" ... Já que isso tem sido assim, filhos em Jesus Cristo, devemos responder. Não lutemos, como o Doutor dos Gentios nos ensina, contra a natureza humana, e sim contra os dominadores do mundo desta escuridão, contra os espíritos da maldade nos altos cargos. Portanto_, ele continua,_ peguem  a armadura de Deus_; a cinta da verdade, o peitoral da justiça, os sapatos da paz, o escudo da fé, o elmo da salvação e a espada do Espírito._

“Com isso, portanto, a Palavra de Deus nos pede para ir à guerra, mas não com as armas desse mundo, pois o seu Reino não é desse mundo; e para relembrar a vocês os princípios desta guerra que foram convocados em Nossa Presença.”

A voz pausou, e houve alguns sussurros ao longo dos bancos. Então, a voz continuou com um timbre levemente mais alto.

"Tem sido uma sabedoria de Nossos predecessores, como é também nosso dever, de  manter silêncio em certas ocasiões, e de outros falarem livremente o conselho completo de Deus. Nós não devemos nos deter ante o conhecimento de nossa própria fraqueza e ignorância, mas para confiar que foi Ele Quem colocou a Nós neste trono irá dignar-se em falar pela Nossa boca e usar Nossas palavras para Sua glória.

"Primeiro, então, é necessário que declaremos nossa sentença ao novo movimento, como os homens o chamam, que tem sido ultimamente iniciado pelos governantes desse mundo.

"Nós não estamos desatentos das bênçãos de paz e união, nem Nós esquecemos de que o aparecimento destas coisas tem sido fruto de muito do que temos condenado. É esta aparência de paz que tem engando muitos, fazendo-os duvidar da promessa do Príncipe da Paz, de que é através dele apenas que teremos acesso ao Pai.
Essa verdadeira paz, diz respeito não apenas às relações dos homens entre si, mas, principalmente, às relações dos homens com seu Criador; e é nesse ponto necessário que falto aos esforços do mundo. Os homens tem refletido—levados por sedutores—que a união das nações era o  mais valioso prêmio desta vida, esquecendo as palavras de nosso Salvador, Que disse que Ele veio não para trazer a espada e sim a palavra, e que é através de muitas tribulações que entramos no Reino de Deus. Primeiramente, então, deve ser estabelecida a paz do homem com Deus, e depois disso, a união do homem com homem irá seguir. _Procure primeiro,_disse Jesus Cristo,_ o reino de Deus—e depois, todas as outras coisas serão dadas a você._

"Primeiro, então, Nós mais uma vez devemos condenar e anatematizar as opiniões daqueles que ensinam e acreditam no contrário disso; e vamos novamente renovar todas as condenações feitas por Nós e por Nossos predecessores, contra todas essas sociedades, organizações e comunidades que foram formadas pelo apoio de uma união sobre algo diferente do que uma fundamentação divina; e Nós devemos relembrar a Nossos filhos no mundo todo que é proibido para eles entrarem ou apoiar de alguma maneira quaisquer destes elementos nominados em tais condenações."

Percy se mexeu no seu assento, com um sentimento de impaciência… A  maneira era soberba, tranquila e formal, mas o assunto ainda superficial. Ali estava a velha reprovação contra a Maçonaria, repetida em linguagem diferente.

“Em segundo lugar,” continuou aquela voz firme, “Nós queremos que lhes sejam conhecidos os Nossos desejos para o futuro; e aqui Nós vamos caminhar  no que muitos consideram terreno perigoso.”

Novamente começou o sussurro. Percy viu mais do que um cardeal se inclinar com a mão fechada para tentar ouvir melhor. Era evidente que algo importante iria ser pronunciado.
“Há muitos pontos,” continuou aquele voz alta, “ dos quais não é Nossa intenção falar neste momento, pois por sua natureza, são secretos, e devem ser tratados em outra ocasião. Mas, o que Nós dizemos aqui, Nós dizemos para o mundo. Desde os ataques de Nossos inimigos são tanto abertos como secretos, assim devem ser Nossas defesas. Esta é então nossa intenção.

O Papa pausou novamente, levantou uma mão mecanicamente em direção ao seu peito e pegou a cruz que estava ali.

“Enquanto o exército de Cristo é único, ele consiste de muitas divisões, cada uma delas com sua própria função e objetivo. Em tempos passados, Deus levantava companhias de Seus servos para este ou aquele trabalho—os filhos de São Francisco para pregar a pobreza, os de São Bernardo para trabalhar em orações com todas as mulheres santas se dedicando este propósito, a Sociedade de Jesus para a educação do jovem e a conversão dos pagãos—juntos com a demais ordens religiosas cujos nomes são conhecidos ao redor do mundo. Cada companhia era levantada para uma determinada necessidade da época, e cada uma correspondia nobremente com a divina vocação. Tinha sido também a glória especial de cada uma, para o apoio de suas intenções, enquanto buscava seu objetivo, de se libertar de atividades (boas em si) que pudessem atrapalhar aquele trabalho pelo qual Deus tinha convocado—seguindo neste assunto as palavras do nosso Redentor. _Todo ramo que gera o fruto, Ele o purga para que possa gerar mais frutos._ Nesta presente época, então, parece para Nossa Humildade que tais Ordens (que uma vez mais Nós louvamos e abençoamos) não são perfeitamente adequadas, pelas próprias condições de suas Regras respectivas, para executar o grande trabalho que a época agora requer. Nossa guerra não lida com a ignorância em particular, quer seja dos pagãos para quem o Evangelho ainda não chegou, quer para aqueles padres que o tem rejeitado, não com as _riquezas enganadoras deste mundo_, nem com a _ciência falsamente assim-chamada_, nem mesmo com qualquer uma das fortalezas de infidelidade contra quem Nós lutamos no passado.
Mas na verdade, parece como se finalmente a época havia chegado, de que o apóstolo falou, quando ele disse que _aquele dia não deverá chegar, exceto que haverá uma apostasia primeiro, e que o Homem do Pecado será revelado, o Filho da Perdição, que se opõe e exalta a si próprio sobre tudo que é chamado de Deus._
“Não é com esta ou aquela força que estamos preocupados, mas sim com a imensidão oculta deste poder cujo tempo foi previsto e cuja destruição está preparada."

A voz pausou novamente, e Percy segurou na grade à sua frente para deter a tremulação das mãos. Não havia sussurros agora, apenas o silêncio. O Papa inspirou longamente, virou seu rosto lentamente para direita e esquerda, e continuou mais deliberadamente que antes.

“Parece certo, então, para Nossa Humildade, que o Vigário de Cristo deve ele mesmo convidar os filhos de Deus para esta nova guerra; e é Nossa intenção de associar sob o título de Ordem de Cristo Crucificado os nomes de todos que se ofereçam para este supremo trabalho. Fazendo assim, Nós estamos cientes da novidade de Nossa ação, e a desconsideração de todas as precauções que foram necessárias no passado.
Nós nos aconselhamos neste assunto com ninguém mais que Ele a Quem acreditamos ter inspirado isso.
“Primeiro, então, Nós vamos dizer, que embora o serviço obediente seja requerido de todos que sejam admitidos nesta Ordem, Nossa intenção principal em instituí-la, repousa na consideração de Deus do que na do homem, em apelar a Ele Que pede nossa generosidade em vez de aqueles que a negam, e nos dedicando uma vez para um ato formal e deliberado nossas mentes e corpos à Vontade celeste.

“Rapidamente, ditamos a seguir as condições.

“Ninguém poderá entrar na Ordem, exceto os mais de setenta anos.

“Nem insígnia, hábito ou rótulos devem ser agregados a ela.

“Os Três Conselhos Evangélicos deverão ser a fundação da Ordem, para a qual vamos adicionar um quarto, a saber, a do desejo de receber a coroa do martírio e o propósito de abraçá-lo.

“O bispo de cada diocese, se ele próprio entrar na Ordem, deverá ser o superior dentro dos limites de sua própria jurisdição, e sozinho deverá se isento da observância do Voto de Pobreza desde que mantenha sua diocese. Os bispos que não sentirem a vocação para a Ordem deverão reter suas sés sob as condições atuais, mas não terão interferência religiosa sobre os membros da Ordem.

“Além disso,Nós anunciamos Nossa intenção de entramos na Ordem como seu prelado supremo, e de fazermos dentro do curso de alguns dias.

“E mais, Nós declaramos que em Nosso Próprio Pontificado ninguém será elevado ao Colégio Sagrado salvo aqueles que tenham decidido entrar na Ordem; e Nós iremos dedicar, em breve, a Basílica de São Pedro e São Paulo como a igreja central da Ordem, em qual igreja Nós levaremos ao altar sem qualquer demora aquelas almas felizes que deverão dedicar suas vidas na busca de sua vocação.

“Desta vocação, é necessário falar mais, indicando que ela pode ser almejada sob quaisquer condições estabelecidas pelos Superiores. Quanto ao noviciado, suas condições e exigências, nós iremos em breve deliberar as providências necessárias. Cada diocesano superior (pois é Nossa esperança que ninguém recue) deverá ter todos os direitos que geralmente pertencem aos Superiores Religiosos, devem ser autorizados a empregar seus subalternos em qualquer trabalho que, em sua opinião, irá servir para a Glória de Deus e à salvação de almas. É Nossa intenção empregar em Nosso serviço ninguém exceto aqueles que sigam à Ordem.”

Ele levantou os olhos uma vez mais, parecendo não estar emocionado, e continuou:

“Até aqui, então, Nós já determinamos. Sobre outros assuntos, Nós vamos nos aconselhar a seguir; mas é Nosso desejo que estas palavras sejam comunicadas para o mundo todo, que não haja demora em divulgar o que Cristo, através de seu Vigário, pede a todos os que seguem o Nome Divino. Não oferecemos recompensas, exceto aqueles que o Próprio Deus tem prometido para aqueles que O amam, e submetem sua vida a Ele; não oferecemos promessa de paz; nenhum lar, salvo aquele que recebe peregrinos e viajantes que procuram vir para a Cidade; nenhuma honra, salvo o desprezo do mundo; nenhuma vida, salvo aquela que está junto a Cristo em Deus.”

FIM.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Senhor do Mundo - Cap. 2 Livro 2


Parte 1

Parecia para Percy Franklin ao se aproximar de Roma, a cerca de 150 metros de altura na madrugada de verão, que ele estava se aproximando dos próprios portões dos céus ou, melhor ainda, que ele se sentia uma criança chegando em casa. Pelo o que ele havia deixado atrás dez horas antes em Londres não era uma coisa ruim, ele pensava, das mansões maiores do inferno. Era um mundo onde Deus , como se houvesse se retirado dali, deixando mesmo em um estado de profunda complacência—um estado sem esperança ou fé, mas uma condição na qual, embora a vida continuava, estava ausente o bem estar essencial. Não que não houvesse expectativa—pois Londres estava muito agitada. Havia rumores de todos os tipos: Felsenburgh estaria voltando; ele estava de volta; ele nunca havia ido embora. Ele deveria ser o Presidente do Conselho, Primeiro Ministro, com todas as prerrogativas de governo democrático e alçado ao pedestal de Rei—se não Imperador do Ocidente. A constituição inteira deveria ser remodelada, um completo rearranjo de suas partes; o crime deveria ser abolido por aquele misterioso poder que tinha acabado com a guerra; haveria comida grátis—o segredo da vida havia sido descoberto, não haveria mais mortes — assim corriam os rumores. Contudo, estava faltando, para a mente do padre, o que fazia a vida valer a pena...

Em Paris, enquanto o volor esperava na grande estação de Montmartre, uma vez conhecida como a Igreja do Sagrado Coração, ele tinha ouvido o alvoroço da população apaixonada pela vida finalmente, e visto as bandeiras passarem. Ao subir pelos  subúrbios , ele tinha visto as longas filas de trens trafegando, visíveis como serpentes brilhantes, trazendo as pessoas para o Conselho da Nação, no qual os legisladores, preocupados, havia se reunido para decidir sobre a grande questão. Em Lyons, tinha sido o mesmo. A noite estava clara como a luz do dia, e com muito barulho. A metade da França esta chegando para registrar seus votos.

Ele havia adormecido quando o ar frio dos Alpes começara a envolver o veículo, e conseguira ver apenas relances dos picos iluminados pela Lua abaixo dele, as negras profundezas dos golfos, o brilho prateado dos lagos, Interlandense (cantão da Suíça) e o vale de Rhone. Em um instante, ele sentiu alguns tremores, quando um dos grandes volors alemães passou, com luzes brilhantes, lembrando um enorme traça com antena de luzes elétricas, e as duas naves se saudaram uma a outra de uma distância de meia légua no ar silencioso, como o grito patético de dois estranhos pássaros noturnos que não tem tempo ocioso para parar. Milão e Turim estavam quietas, pois a Itália estava organizada em princípios diferentes da França, e Florença ainda não estava acordada. E agora Campagna (Salerno) estava passando como um tapete verde acinzentado, enrugado e acidentado, mais de 150 metros abaixo e Roma ainda não estava à vista. O indicador sobre o seu assento indicava de 160 a 150 quilômetros.

Ele despertou finalmente e abriu seu livro de anotações; mas ao pronunciar as palavras, sua atenção estava em outro lugar e, quando informaram o horário das 6 horas da manhã, ele fechou o livro novamente, inclinou-se mais confortavelmente, cobrindo-se com os cobertores e esticando os pés em direção ao banco da frente que estava vago. Ele estava sozinho em seu compartimento; os três homens que haviam entrado em Paris, tinham descido em Turim.

* * * * *

Ele havia ficado muito aliviado quando a mensagem chegara do Cardeal Protetor, solicitando a ele que tomasse providências para uma ausência longa da Inglaterra e, logo que pudesse, para vir à Roma.
Ele compreendia que finalmente as autoridades eclesiásticas estavam preocupadas. Ele, nos últimos dias, reviu o relatório que ele iria apresentar. Desde sua última carta, há três dias, sete notáveis apostasias aconteceram na diocese de Westminster apenas, dois padres e cinco importantes leigos. Houve sinais de revoltas de todos os lados; ele tinha visto um documento ameaçador, chamado de a “petição”, requisitando o direito de dispensas das vestes eclesiásticas, assinada por cento e vinte padres da Inglaterra e País de Gales. Os “peticionadores” afirmavam que a perseguição chegaria rapidamente pelas mãos da população; que o Governo não era sincero nas promessas de proteção; eles ainda afirmavam que a lealdade religiosa já estava estremecida até no caso dos mais fiéis e que nos demais já estava rompida.
 E Percy estava claro em seus comentários. Ele iria dizer às autoridades, como já havia feito cinquenta vezes, que não era a perseguição que importava; era o crescente entusiasmo pelo Humanismo—um entusiasmo que havia florescido enormemente desde a chegada de Felsenburgh e a publicação das notícias do Oriente—que estava derretendo o coração de todos. O homem de repente tinha se apaixonado pelo homem. As pessoas comuns estavam esfregando os olhos, e se perguntando no que elas haviam acreditado, ou mesmo sonhado, que haveria um Deus para amar, qual o segredo do encanto que havia prendido elas por tanto tempo. O Cristianismo e o Deísmo estavam passando pelo seu momento na mentalidade do Mundo, como a névoa da manhã desaparece quando o Sol surge. As suas recomendações--? Sim, ele as tinha bem claras, e as repassava em sua cabeça com um sentimento de desespero.

Para si , ele pouco sabia acreditava no que ele professava. Suas emoções pareciam ter sido finalmente extintas na visão da nave branca de Felsemburgh e no silêncio da multidão naquela tarde das últimas três semanas.
Havia sido terrivelmente real e positivo; as delicadas aspirações e esperanças da alma pareciam nebulosas quando comparadas com aquela emotiva paixão da população. Ele nunca tinha visto algo como aquilo; nenhuma congregação sob o maior encanto proporcionado pelo mais carismático pregador tinha conseguido um décimo do fervor daquela multidão que havia na manhã fria das ruas de Londres tinha saudado aquele salvador deles.

E quanto ao próprio homem—Percy não conseguia analisar o que foi que havia possuído ele na sua contemplação, murmurando o nome de Jesus, sobre daquela figura de preto com a aparência e os cabelos semelhantes aos seus.

Ele apenas sabia que uma mão havia apertado seu coração—uma mão quente, não fria—e  que havia apagado todo sentimento de convicção religiosa.

Tinha sido apenas com um esforço, que não gostava de relembrar, que ele tinha evitado aquele ato interior de capitulação, que  é tão familiar a todos que tenham cultivado uma vida interior e entendem o que fracasso significa.

Havia apenas uma cidadela que não havia escancarado seus portões—tudo o mais havia cedido. Suas emoções estavam alvoroçadas, seu intelecto silenciado, sua memória da graça obscurecida, sua alma acometida de uma náusea espiritual, contudo a fortaleza secreta da vontade tinha, em agonia, sustentado firme as portas e recusaram gritar  e chamar Felsenburgh de rei.

Ah! Como ele tinha orado durante aquelas três semanas! Parecia para ele que não havia feito nada além disso; não havia paz. Dúvidas eram lançadas pelas portas e janelas; toneladas de discussões vinham de cima abaixo; ele estava alerta dia e noite, repelindo isso, cegamente, negando aquilo, esforçando-se para se manter firme no plano escorregadio do sobrenatural, enviando pedidos após pedidos para o Senhor que se ocultava.
Ele dormia com o crucifixo nas mãos, ele acordava beijando-o; enquanto escrevia, conversava, comia, andava e sentava-se nos veículos, o seu interior andava ocupado fazendo atos de fé em uma religião que seu intelecto negava e da qual suas emoções se tolhiam. Houvera momentos de êxtase—agora em uma rua movimentada, quando ele reconhecia que Deus era tudo, que o Criador era a chave para vida do homem, que um humilde ato de adoração era transcendentalmente maior que um ato natural mais nobre, que o Sobrenatural era a origem e o fim da existência. Estes momentos vinham a ele à noite, no silêncio da catedral, quando as luzes  bruxuleavam e um golpe de ar vinha da porta de ferro do tabernáculo. A seguir, a paixão refluía e o deixava desamparado na angústia, mas ainda determinado (que poderia ser igualmente de orgulho ou fé) de que nenhum poder na Terra ou do Inferno iria impedi-lo de professar o Cristianismo, mesmo que ele não conseguisse entendê-lo. Era apenas o Cristianismo que tornava a vida tolerável.

Percy respirou profunda e ruidosamente, mudando sua posição no assento; pois ao longe seus olhos semifechados avistavam um domo, como uma bolha azul colocada sobre um carpete verde; e seu cérebro interrompia-se para dizer a ele que era Roma. Daí, se levantou, saiu de seu compartimento e se dirigiu à área central, olhando através das janelas de vidro à direita e esquerda dos outros passageiros, alguns ainda adormecidos, alguns olhando para a vista e outros lendo.

Ele fixou os olhos no vidro quadrado da porta e por uns alguns instantes, olhava fascinado à figura firme do piloto em seu posto. Lá estava ele imóvel, suas mãos no volante de aço que comandava as vastas asas, seus olhos nos medidores indicativos da força e direção dos ventos, de vez em quando suas mãos moviam-se lentamente, e os grandes motores respondiam, fazendo subir e descer. Debaixo dele e em frente, fixos em um painel circular, havia vários indicadores—Percy não entendia quase nada—um parecia ser uma espécie de barômetro, que ele achava que informava a altura na qual eles estavam viajando, e um outro era um tipo de bússola. E além, pelas janelas via-se um enorme céu. Bem, era tudo maravilhoso, pensava o padre, era com a força de tudo isso  com que o sobrenatural deveria competir.

Ele suspirou, virou-se e voltou para seu compartimento.

Era uma visão fantástica que começava a se apresentar a ele—bonita, estranha e tão irreal como um mapa na parede. Mais à sua direita, conforme ele podia ver pelas portas de vidro, havia uma faixa cinzenta contra um céu claro que subia e descia levemente conforme a nave, aparentemente imóvel, se inclinava imperceptivelmente contra a brisa do oeste; o único outro movimento que se sentia era a pulsação do enorme motor na traseira. Para a esquerda, se deparava com enorme porção de terras com algumas vilas, achatadas e desconhecidas, ou alguma porção de água e  limitada ao fundo com as colinas úmbrias; e agora pela frente, podia se ver a imagem confusa de Roma e seus novos e grandes subúrbios, coroados com os grandes domos que apareciam a todo o instante.

Por  todos os lugares, seus olhos viam amplos espaços que se estendiam de cor lápis-lazúli aos horizontes de turquesa pálida. O único som, do qual ele tinha há bastante tempo deixado de ouvir, era do forte movimento do ar, menos agudo agora, pois a velocidade tinha baixado para 30 quilômetros por hora. Houve um barulho de um sino e imediatamente ele sentiu uma náusea quando a nave fez uma grande descida, que o fez ele agarrar suas cobertas. Quando ele olhou novamente, o movimento parecia ter cessado; ele podia ver torres à frente, uma linha de telhados de casas e mais abaixo ele viu uma estrada e mais tetos dentre tapetes verdes. Um sino tocou novamente, e um longo e doce apito se seguiu. Em todos os lados, ele podia ouvir movimento de pés; um guarda em uniforme passou rapidamente pelo corredor; novamente veio aquela náusea; e quando ele olhou para cima mais uma vez, ele viu o domo, cinza agora e praticamente ao nível de seus olhos, enorme contra aquele céu claro. Houve um giro por um momento; ele fechou os olhos e quando olhou de novo, os muros pareciam passar por ele e pararem. Houve um último sinal, uma leve vibração ao veículo aterrissar na doca de aço armado; uma série de rostos balançando e depois imóveis do lado de fora das janelas e Percy saiu em direção às portas, carregando suas malas.
  
Parte 2

Ele ainda se sentia um pouco fraco em sua movimentação, quando se sentou sozinho para um café um hora depois em uma das remotas salas do Vaticano; mas havia um sentimento de alegria também, pela sua mente sentir onde estava. Havia sido estranho andar em pequeno táxi mirrado pelas ruas, fazendo ele lembrar há dez anos quando deixou Roma, depois de ser ordenado. Enquanto o mundo havia seguido em frente, Roma havia parado; não havia outros assuntos outros do que cuidar de apenas melhorias físicas, agora que o peso espiritual da Terra estava inteiramente sobre os seus ombros. Tudo parecia não haver mudado—ou melhor,  ela tinha voltado para a condição dela de quase 150 anos atrás. Histórias eram contadas de como as melhorias no governo italiano haviam caído gradualmente fora de uso, enquanto que a cidade, 80 anos antes, tinha ganho sua independência; os trens paravam de andar; os volors não foram permitidos passar pelas muralhas; os novos edifícios haviam sido convertidos para uso eclesiástico; o palácio do Quirinal se tornara o escritório do “Papa Vermelho”, as embaixadas, enormes seminários; até mesmo o próprio Vaticano, com a exceção do piso superior, tinha se tornado a residência do Colégio Sagrado, que cercava o Sumo Pontífice como as estrelas o seu Sol.

Era uma extraordinária cidade, diziam os antiquários—o único exemplo vivo daqueles velhos tempos. Aqui deveriam ser vistas as antigas inconveniências, os sujos horrores , a encarnação de um mundo dado a sonhar. A velha pompa da Igreja estava de volta, também; os cardeais andavam em carruagens adornadas a ouro; o Papa cavalgava em sua mula branca; o Sagrado Sacramento percorria as ruas mal cheirosas com o badalo de sinos e as lamparinas. Uma brilhante descrição disso tinha interessado o mundo civilizado imensamente por aproximadamente 48 horas; o enorme declínio ainda era usado ocasionalmente como assunto para violentas denúncias pelos pobremente educados; os bem educados tinham cessado de fazer alguma coisa a não ser considerar certo que a superstição e o progresso eram inimigos irreconciliáveis.

Contudo, Percy, mesmo nos relances que tinha visto nas ruas, quando se dirigiu da estação do volor , para fora do Portão do Povo, pode ver as vestimentas velhas dos camponeses, as carroças de vinho, as valetas cheias de repolhos espalhados, as roupas molhadas voando nos varais, as mulas e cavalos—estranho que podiam parecer, eram um alívio para ele. Parecia relembrar que o homem era humano e não divino como o resto do mundo estava proclamando – humano e, portanto, descuidado e individualista; humano e portanto ocupado com interesses outros que velocidade, limpeza e precisão.

A sala, onde ele estava sentado perto da janela com persianas, devido ao sol quente, parecia que era de uma época anterior a um século e meio. O velho damasco e dourado que ele esperava, já não existiam mais, e sua ausência  dava a impressão de grande severidade. Havia uma grande mesa no centro da sala, com poltronas de madeira; o chão com pisos vermelhos, com faixas para passeio dos pés, as paredes brancas mal pintadas tinham somente  alguns quadros velhos pendurados, e um grande crucifixo flanqueado por velas estavam sobre um pequeno altar ao lado da porta. Não havia mais móveis que estes, com a exceção de uma escrivaninha entre as janelas, sobre a qual jazia uma máquina de escrever. Isto, de alguma forma, perturbava seu senso de organização, e ele estava surpreso com isso.

Terminou seu último gole de café na xícara branca de asa grossa e recostou-se na cadeira.

* * * * *

Agora o fardo estava mais leve, e estava assombrado com a rapidez com qual isso havia ocorrido. A vida parecia bem mais simples aqui; o mundo interior era coisa certa; não era nem uma questão de discussão. A própria sombra de Deus parecia descansar ali; não era mais impossível perceber que os santos assistiam e intercediam, que Maria sentava em seu trono, e que no altar estava Jesus Cristo. Percy não estava totalmente em paz ainda; ele estava há apenas uma hora em Roma; e o ambiente, carregado com tanta graça, poderia fazer pouco mais que já tinha feito. Mas ele sentia mais à vontade, menos desesperadamente ansioso, mais como uma criança, mais satisfeito em descansar sob a autoridade que reivindicava e assegurava que o mundo, como fato e prova por evidências, era feito dessa maneira e não daquela, para este propósito e não para o outro. Contudo, ele tinha usado as conveniências que  odiava; ele tinha deixado Londres há 12 horas e agora estava sentado naquele lugar, que era um corpo de água estagnado, ou talvez a uma pequena corrente deste corpo; ele não estava certo ainda.

* * * * *

Ouviram-se passos do lado de fora, a maçaneta abriu; e adentrou-se o Cardeal Protetor.

Percy não o tinha visto há 4 anos e por um momento quase não o reconheceu.

Era um homem velho que ele via agora, dobrado e frágil, seu rosto coberto de rugas, com cabelos brancos e finos, e o chapéu vermelho na cabeça; ele estava de hábito beneditino negro, com um simples crucifixo abacial no peito. Ele andava com hesitação, com a ajuda de uma bengala negra. O único sinal de vigor era o branco brilhante dos olhos com suas pálpebras caídas. Ele esticou sua mão, sorrindo, e Percy, relembrando-se do tempo em que estava no Vaticano, fez uma reverência ao beijar a ametista.

“Bem-vindo a Roma, Padre,” disse o velho senhor, falando com uma vivacidade inesperada.
“Ele me disseram que já está aqui há meia hora; eu pensei que deveria te deixar se lavar e tomar café.” 
Percy murmurou algo. 
“Sim; você está cansado, sem dúvida, “ disse o Cardeal, puxando uma cadeira. 
“Certamente que não, sua Eminência. Eu dormi muito bem.” 
O Cardeal gesticulou-se para uma cadeira. 
"Mas eu tenho que ter uma palavra com você. O Santo Padre quer vê-lo às 11 horas.” 
Percy sobressaltou-se um pouco. “Estamos agindo rápido nesses dias, Padre,  não há tempo a perder. Você entende que deve ficar em Roma por ora?” 
“Eu já providenciei tudo, sua Eminência.” 
“Está muito bem… Nós estamos contentes por estar aqui, Padre Franklin. O Santo Padre ficou impressionado pelos seus comentários. Você tem previsto coisas de uma maneira notável.”

Percy ficou contente pelo comentário. O primeiro sinal de encorajamento que ele havia conseguido. Cardeal Martin continuou.

“Posso dizer que você é nosso mais valioso correspondente---certamente na Inglaterra. É a razão pela qual foi chamado. Você deve nos ajudar aqui no futuro—uma espécie de consultor: qualquer um pode relatar os fatos; nem todos consegue entendê-los... Você parece muito jovem, Padre. Qual sua idade?”

“Tenho trinta e três, sua Eminência.”

“Ah! Seus cabelos te ajudam... Agora, Padre, pode vir comigo até minha sala? São 8 horas. Vou ficar contigo até as 9—talvez um pouco mais. Depois, você vai descansar o e às 11, vou levá-lo à nossa Santidade.”

Percy levantou-se com um leve sentimento de euforia, e adiantou-se para abrir a porta para o Cardeal passar.


Parte 3

Alguns minutos antes das 11 horas, Percy saiu do seu pequeno aposento pintado a cal com seus trajes e sapato de fivela, e bateu na porta do aposento do Cardeal. Ele se sentia agora muito mais confiante. Ele havia conversado com o Cardeal de maneira franca e desinibida. Descreveu a ele o efeito que Felsenburgh tinha criado em Londres, e também a paralisia que se apossara dele próprio. Ele afirmara que sua crença estava à beira de um movimento nunca acontecido na história: ele relatou algumas cenas que testemunhara—um grupo de joelhos ante uma imagem de Felsenburgh, um homem moribundo clamando pelo seu nome, o aspecto da  multidão que havia esperado em Westminster para ouvir o resultado da oferta feita ao estranho  homem. Ele mostrou uma meia dúzia de recortes de jornais, que indicava o entusiasmo histérico das pessoas; ele foi até mais longe em profetizar que a perseguição estava razoavelmente chegando.

“O mundo aparenta estar muito estranho,” ele disse; “é como se todas as coisas estivessem agitadas e inflamadas.”

O Cardeal assentiu.

“Nós, também,” ele disse, “até eu sinto isso.”

Quanto ao restante, o Cardinal sentara olhando-o pelos seus olhos estreitos, concordando de momento em momento, colocando alguma pergunta ocasional, mas ouvindo tudo com muita atenção.

“E suas recomendações, Padre---“ ele tinha dito, e depois interrompeu. “Não, isto é pedir muito. O Santo Padre vai falar disso.”

Ele o havia parabenizado pelo seu Latim—pois ele havia falado nesta língua na segunda entrevista; e Percy tinha explicado como a leal Inglaterra Católica estava seguindo  a ordem, dada dez anos antes, de que o Latim deveria ser para a Igreja o que o Esperanto estava se tornando para o mundo agora.

“Está muito bem,” disse o velho senhor. “Sua Santidade vai gostar disso.”

Na sua segunda batida, a porta se abriu e o Cardeal saiu, levando-o com ele pelo braço sem uma palavra; e juntos se encaminharam para a entrada do elevador.

Percy se aventurou a fazer uma observação ao seguirem silenciosamente em direção ao apartamento papal.

“Estou surpreso com o elevador, sua Eminência, e a máquina de escrever na sala de audiências.”

“Por quê, Padre?”

“Porque todo o resto de Roma está de volta aos velhos tempos.”

O Cardeal olhou para ele perplexo.

“Está? Eu suponho que esteja. Nunca pensei nisso.”

Um guarda suíço abriu a porta do elevador, saudou-os e seguiu na frente deles pela passagem embandeirada para onde estava seu companheiro. A seguir, ele saudou novamente e voltou. Um camarista pontifical  em toda a seriedade e pompa da púrpura e do negro, olhou do buraco da porta e apressou-se em abrir. Parecia realmente incrível que tais coisas ainda existissem.

“Em um instante, sua Eminência,” ele disse em Latim. “Sua Eminência vai aguardar aqui?”

Era uma pequena sala quadrada, com meia dúzia de portas, simplesmente planejada de um dos grandes e velhos salões, pois era imensamente alta, e a cornija dourada descoloria em dois lugares nas paredes brancas. As divisórias, também, pareciam finas; pois enquanto os dois homens estavam sentados, ouvia-se o murmúrio de vozes levemente audível, passos e o barulho eterno da máquina de escrever, do qual Percy esperava ter se livrado. Eles estavam sozinhos na sala, que era mobiliada com a mesma simplicidade que a do Cardeal- dando a impressão de uma curiosa mistura de pobreza ascética e dignidade pelo piso de cor vermelha, as paredes brancas, o altar e dois candelabros de bronzes grandes de valor incalculável. As persianas aqui, também, estavam abertas; e não havia nada para distrair Percy da emoção que agora estava ainda maior no seu coração e na mente.

Era Papa Angelicus quem ele deveria ver; o fantástico velho senhor que tinha sido apontado Secretário de Estado  cinquenta anos atrás com a idade de 30, e Papa nove anos antes. Tinha sido ele quem executou a extraordinária medida de ceder as igrejas por toda a Itália para o Governo, em troca da posição de autoridade em Roma, e que havia desde então posto a ideia de fazer uma cidade dos santos. Parecia que ele não tinha se importado com a opinião mundial, sua política, até onde podia se chamar de uma, consistia de uma coisa muito simples: ele tinha declarado em Epístola após Epístola que o objetivo da Igreja era glorificar a Deus com a produção de virtudes sobrenaturais no homem, e que nada mesmo era de importância ou significância, exceto até onde ela conseguia este objetivo. Ele tinha depois afirmado que desde que Pedro era a Pedra, a Cidade de Pedro era a capital do mundo, e deveria ser um exemplo para sua dependência: isto não poderia ser feito a menos que Pedro reinasse nesta Cidade; e, portanto, ele havia sacrificado todas as igrejas e edifícios eclesiásticos no país para este fim. Depois, ele pôs-se a governar a sua cidade: ele tinha dito que, no geral, as recentes descobertas do homem tendiam a distrair as almas imortais de uma contemplação das verdades eternas — não que estas descobertas não pudessem ser boas em si próprias, pois elas davam o discernimento das maravilhosas leis de Deus — mas, no momento, elas eram emocionantes demais para a imaginação. Assim, ele removeu os bondes, os volors, os laboratórios, as manufaturas—dizendo que havia muito mais espaço fora de Roma—e havia permitido que se instalassem nos subúrbios: em seus lugares, ele levantou santuários, casas religiosas e Calvários. Como Roma esta dotada de área limitada, ainda mais porque do mundo corrompido, ele não permitia que homens abaixo de cinquenta anos morassem dentro de seus muros por mais que um mês em cada ano, exceto para que aqueles que recebessem sua permissão. Eles poderiam morar, é claro, fora dos limites da cidade  (e eles moravam, dezenas de milhares), mas ele deviam entender que fazendo isso, eles pecavam contra o espírito, embora não contra os desejos do Padre. Depois, ele havia dividido a cidade em lotes nacionais, dizendo que cada nação tinha suas virtudes peculiares, cada uma deveria brilhar sua luz em seu lugar específico.
Os aluguéis logo aumentaram, assim ele teve que legislar contra isso ao reservar em cada lote um número de ruas com preços fixos e emitiu uma excomungação ipso facto contra todos que faltarem neste respeito.
O restante ficava largado aos milionários. Ele tinha retido a Cidade Leonina inteiramente  para sua disposição. Depois, ele restaurara a Punição Capital, com tanta seriedade quanto o que ele afirmou sobre o ridículo mundo civilizado a respeito de outros assuntos, dizendo que embora a vida humana era sagrada, a virtude humana era ainda mais sagrada; e ele havia adicionado o crime de assassinato, os crimes de adultério, idolatria e apostasia, para os quais a punição era teoricamente sancionada. Não havia, contudo, mais que duas de tais execuções nos oito anos de seu reino, já que criminosos, é claro, com a exceção de devotados crentes, logo rumaram para os subúrbios, onde eles não estavam mais sob sua jurisdição.
 Mas ele ficou nisso. Ele enviou uma vez mais embaixadores para todos os países do mundo. Não foi dada nenhuma atenção para isso, além de gracejos; mas ele continuou, sem se perturbar, para reivindicar seus direitos, e, enquanto isso, usou seus legados para o importante trabalho de disseminar sua visão. Epístolas apareciam de tempos em tempos em todas as cidades, declarando os princípios das reivindicações papais com tanta tranquilidade como se fossem reconhecidas em todo o mundo. A Maçonaria era firmemente denunciada, assim como ideias democráticas de toda a espécie; os homens eram relembrados de suas almas imortais e da Majestade de Deus, e para refletirem sobre o fato de que em alguns anos todos teriam que prestar contas para com Ele Que era o Criador e Governante do mundo, Cujo Vigário era João XXIV, P.P. 
Essa era a linha de ação que deixou o mundo surpreendido. As pessoas esperavam histeria, discussões e apaixonada exortação; emissários disfarçados, intrigas e protestos. Não houve nada disso. Era como se o progresso não havia ainda começado, e os volors não tivessem sido inventados, como se o universo inteiro não tivesse chegado a desacreditar de Deus; Aqui estava um tolo senhor, falando em seu sono, balbuciando sobre a Cruz, sobre a vida interior e o perdão dos pecados, exatamente como seus predecessores tinham falado há dois mil anos. Bem, era apenas um sinal que Roma tinha perdido não somente seu poder, mas seu bom senso também. Era realmente o tempo que algo deveria ser feito.

* * * * *
E este era o homem, pensava Percy, _Papa Angelicus_, a quem ele deveria ver em seguida.
O Cardeal colocou sua mão sobre o joelho do padre quando a porta se abriu e um prelado vestido de púrpura apareceu, curvando-se.
 "Apenas isso," disse ele. "Seja absolutamente sincero."
 Percy se levantou, tremendo. Depois, seguiu com seu companheiro pela porta adentro.
  
Parte 4

Uma figura de branco estava sentada dentro do ambiente iluminado em verde, diante de uma  grande escrivaninha a uns quatros metros, com a cadeira colocada de frente para a porta pela qual os dois entraram. Tão logo Percy o viu, já fez a primeira genuflexão. Depois, abaixou os olhos, continuou, fez nova genuflexão junto com o acompanhante, avançou um pouco mais e pela terceira vez, fez nova genuflexão, levantando a fina mão branca e esticando-a para seus lábios. Ele ouviu a porta se fechar ao se levantar.
 "Padre Franklin, Santidade," disse o Cardeal ao seu ouvido.
 Um braço de mangas brancas indicou duas cadeiras à distância de um metro e os dois sentaram.

* * * * *

Enquanto o Cardeal, falando lentamente em latim, proferia algumas sentenças, explicando  que este era o padre inglês cujas correspondências tinham sido muito úteis, Percy começava a olhar com todos os seus olhos.
 Ele já conhecia bem o rosto do Papa, de centenas de fotografias e filmes; até os gestos deles lhe eram familiares, a leve inclinação da cabeça em assentimento, o pequeno e eloquente movimento das mãos; mas Percy, sem originalidade, dizia a si mesmo que a presença pessoal era muito diferente.
 Era um velho senhor bastante ereto que ele via na cadeira diante dele, de média estatura e cintura, com as mãos agarrando os braços da sua cadeira, com sua aparência de grande e deliberada dignidade. Mas era para a face que ele principalmente olhava, abaixando sua contemplação três ou quatro vezes quando os olhos azuis do Papa viravam sobre ele. Eram olhos extraordinários, relembrando o que os historiadores diziam de Pio X; os cílios formavam linhas retas entre eles, dando a aparência de um falcão, mas o resto do rosto dizia o contrário. Não havia agudeza. Não era  magro ou gordo, mas belamente modelado em um formato ovalado: os lábios eram bem definidos, com um olhar apaixonado em suas curvas; o nariz descia em uma forma aquilina, terminando em narinas cinzeladas; o queixo era firme e dividido, e a pose de toda a cabeça era estranhamente jovial. Era um rosto de grande generosidade e docilidade, colocada em um ângulo de desafio e humildade, mas eclesiástico de orelha a orelha e de testa a queixo; a testa era levemente comprimida nas têmporas, e debaixo do gorro havia cabelos brancos.
 Percy estava tentando resumir tudo aquilo, mas nada veio à sua cabeça, exceto a palavra “padre”. Era isso e ponto. _Ecce sacerdos magnus!_ Ele estava maravilhado pela sua jovialidade, pois o Papa tinha oitenta e oito anos; contudo sua figura era a de um homem ereto de cinquenta, ombros não desleixados, sua cabeça firme como a de um atleta, e suas rugas eram quase que imperceptíveis à meia luz._Papa Angelicus!_ refletia Percy.

O Cardeal cessara com suas explanações, e fez um pequeno gesto. Percy reuniu suas faculdades mentais para se preparar para as perguntas que sabia que viriam.
 "Seja bem-vindo, meu filho," disse uma voz suave e sonora.
Percy se inclinou, desesperadamente, desde a cintura.

O Papa abaixou seus olhos novamente, pegou um peso de papel com sua mão esquerda e começou a brincar com ele calmamente enquanto conversava.
"Agora, meu filho, faça um pequeno relatório. Eu sugiro em três partes—o que aconteceu, o que está acontecendo e o que vai acontecer, com uma conclusão do que deveria acontecer.”
 Percy inspirou profundamente, se acomodou na cadeira, prendeu os dedos da mão esquerda com os da direita, fixou seus olhos firmemente no sapato vermelho adornado com uma cruz  e começou. (Não tinha ele ensaiado isso uma centena de vezes!)

* * * * *
 Ele começou com seu tema; para o efeito de que todas as forças do mundo civilizado estavam concentradas em dois campos—o mundo e Deus. Até o presente momento, as forças do mundo haviam sido incoerentes e espasmódicas, desenvolvendo-se em vários modos—revoluções e guerras haviam sido como movimentos de uma populaça, indisciplinada, sem habilidades e sem controle. Para enfrentar isso, a Igreja, também, tinha agido através do seu Catolicismo—dispersão em vez de concentração: _franc-tireurs_ tinham se oposto a _franc-tireurs_. Mas, durante os últimos cem anos, havia indicações de que a metodologia de guerra deveria mudar. A Europa, de qualquer modo, tinha ficada cansada de lutas internas; os sindicatos, primeiro do Trabalho, depois do Capital, e a seguir do Trabalho e Capital combinados, ilustravam isto na esfera econômica; a divisão pacífica da África na esfera política; a expansão da religião Humanitária na esfera espiritual. Contra isso, deve ser colocada a crescente centralização da Igreja. Pela sabedoria dos pontífices, sob o domínio supremo de Deus Todo Poderoso, as linhas tinham sido traçadas mais próximas a cada ano. Ele deu como exemplo a abolição de todos os usos locais, incluindo aqueles há tanto tempo cultivados pelo Oriente, o estabelecimento dos Cardeais Protetorados em Roma, a imposição da unificação de todos os freires em uma única Ordem, embora retendo os seus nomes familiares, sob a autoridade do supremo General; todos os monges, com a exceção dos Cartusianos, os Carmelitas e os Trapistas em uma outra ordem; e  em uma só a unificação destas três exceções. Também, a classificação de noviças sob este mesmo plano. Além disso, ele observou os mais recentes decretos, estabelecendo o sentido da decisão do Vaticano sobre a infalibilidade, a nova versão da Lei Canônica, a imensa simplificação que havia ocorrido na administração eclesiástica, a hierarquia, rubricas e os assuntos de países missionários, com os novos e extraordinários privilégios garantidos aos padres missionários. Neste ponto, ele se tornou ciente de que sua autoconsciência o tinha deixado e passou a, mesmo com pequenos gestos e a voz um pouco mais alta, a ampliar a significância dos acontecimentos do mês passado.
 Tudo que tinha acontecido antes, ele disse, apontava para o que tinha agora acontecido na verdade—ou seja, a reconciliação do mundo em uma base que não fosse a Divina Verdade. Era intenção de Deus e seus Vigários reconciliarem todos os homens em Cristo Jesus; mas a pedra fundamental tinha sido uma vez rejeitada, e em vez do caos que os piedosos haviam profetizado, estava acontecendo uma unidade diferente de qualquer coisa conhecida na História. Era mais mortal pelo fato de que continha tantos elementos de bondade indubitável. A Guerra, aparentemente, estava extinta agora, e não fora o Cristianismo que o fez; união era agora melhor que a desunião, e a lição havia sido aprendida ao largo da Igreja. De fato, as virtudes naturais se tornaram ricas e abundantes e as virtudes sobrenaturais eram desprezadas. A amizade tomou o lugar da caridade, satisfação o lugar da esperança e o conhecimento o lugar da fé.

Percy parou, pois ele tinha consciência de que estava fazendo uma espécie de sermão.
“Sim, meu filho,” disse a voz agradável. “O que mais?”
O que mais?... Muito bem, continuou Percy, movimentos como estes criaram homens e o homem deste movimento era Julian Felsenburgh. Ele tinha realizado um trabalho que—à parte de Deus--- parecia milagroso. Ele havia quebrado a eterna divisão entre o Oriente e Ocidente, vindo ele próprio do continente que sozinho poderia produzir esses poderes; ele tinha prevalecido pela pura força de sua personalidade sobre os dois supremos tiranos de fanatismo religioso e governo partidário. Sua influência sobre os passivos ingleses fora um outro milagre, e ainda tinha incendiado França, Alemanha e Espanha. Percy aqui descrevia algumas das cenas, dizendo que era como uma visão de um deus: e ele citou alguns dos títulos dados a esse homem por jornais sérios. Felsenburgh era chamado de Filho do Homem, porque ele tinha aniquilado a guerra e sobrevivido—mesmo—mesmo – aqui a voz de Percy falhou—encarnado Deus, porque ele era o representante perfeito do homem divino.
 A quieta face do padre ouvindo jamais franzira o cenho ou se movera; e ele continuou.
 A perseguição, ele disse, estava chegando. Já tinham acontecido alguns distúrbios. Mas a perseguição não deveria ser temida. Sem dúvida, causaria apostasias, como sempre ocorria, mas estas eram deploráveis apenas devido a apóstatas individuais. Por outro lado, iria reassegurar o fiel; e limpar os fracos. Uma vez, nos tempos passados, o ataque de Satã tinha sido feito no lado físico, com chicotes, fogo e bestas; no século dezesseis fora no lado intelectual; no século vinte nas nascentes da vida espiritual e moral. Agora, parecia que o ataque era nos três planos de uma vez. Mas, o que deveria ser principalmente temido era a influência positiva do Humanitarismo: estava chegando, como o reino de Deus, com poder; estava esmagando o imaginativo e o romântico,  assumindo em vez de afirmar sua própria verdade; estava sufocando com almofadas em vez de ferir e estimular com a controvérsia. Parecia estar forçando seu caminho, quase objetivamente, dentro do mundo interior. As pessoas que pouco  ouviram desse nome, estavam professando seus dogmas; padres o absorveram, como eles absorvessem Deus na Comunhão—ele mencionou nomes dos recentes apóstatas—crianças aceitavam ele como o próprio Cristianismo. A alma naturalmente cristã parecia estar se tornando “a alma naturalmente infiel.” A perseguição, disse o padre, deveria ser bem-vinda como uma salvação, orada e obtida; mas ele temia que as autoridades fossem muito espertas, e diferenciavam o antídoto do veneno. Poderia haver martírios —de fato haveria  muitos —mas seriam devidos ao governo secular, não por causa dele. Finalmente, ele esperava que o Humanitarismo iria, a seguir, vestir as vestes da liturgia e do sacrifício, e quando isto fosse feito, a causa da Igreja, a menos que Deus intervisse, estaria acabada.
 Percy recostou-se, trêmulo. 
“Sim, meu filho. E o que você acha que deve ser feito?”
 Percy abriu suas mãos.
 “Santo Padre — a missa, orações e o terço. Estes os primeiros e os últimos. O mundo nega o poder destes: é nesse poder que os cristãos devem colocar todas as suas forças. Todas as coisas em Jesus Cristo—em Jesus Cristo, primeiro e último. Nada mais pode ajudar. Ele pode fazer tudo, pois nós não podemos fazer nada.”
 A cabeça branca concordou e ele se levantou.
 “Sim, meu filho… Mas é condescendente em nos usar e devemos ser usados. Ele é o Profeta e Rei, assim como o Padre. Nós, então, devemos ser profetas e reis, assim como padres. E sobre a Profecia e a Realeza?”

A voz soou a Percy como a de um trompete.
“Sim, Santidade… Para a profecia, então, vamos pregar a caridade; para a Realeza, vamos reinar sobre cruzes. Devemos amar e sofrer…” (ele ofegou) “Sua Santidade tem pregado caridade sempre. Vamos deixar a caridade então fazer boas ações. Vamos ser os primeiros nelas;  vamos nos engajar em negociação honestamente, na vida familiar, pura e decentemente, nos assuntos de governo firmes e direitos. E quanto ao sofrimento—ah! Santidade!”
 Seu velho plano saltou de volta a sua mente e permaneceu lá convincente e imperioso.
 "Sim, meu filho, fale claramente."
 "Sua Santidade —é antigo— antigo como Roma — todo tolo a desejou: uma nova Ordem, Santidade—uma nova Ordem”, ele gaguejou.
A mão branca deixou cair o peso de papel; o Papa se inclinou para a frente, olhando fixamente para o padre.
 "Como, meu filho?"
 Percy ficou de joelhos.
 "Uma nova Ordem, Santidade—sem hábitos ou emblemas—subordinada à sua Santidade somente—mais livre que a dos Jesuítas, mais pobre que a dos Franciscanos, mais mortificada que a dos Cartusianos: tanto homens como mulheres—os três votos com a intenção do martírio; o Panteão para sua Igreja; cada bispo responsável pelo seu sustento; um responsável por cada país.. (Santidade, é a ideia de um tolo.)… E Cristo Crucificado  como seu padroeiro.”
 O Papa se levantou abruptamente—tão abruptamente que o Cardeal Martin se levantou também, apreensivo e atemorizado. Parecia que aquele jovem homem tinha ido longe demais.
 A seguir, o Papa sentou-se novamente, estendendo sua mão.
 "Deus o abençoe, meu filho. Você tem a permissão para ir. Sua Eminência pode ficar por alguns minutos?"

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Fim do Capítulo 2 do Livro 2